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Parte II - O perfil de um pai quinta-feira, maio 31, 2012


   Ao longo de seus 67 anos, meu pai teve a vida marcada por muitos erros e acertos, os quais se é impossível, na qualidade de humana, medir num parâmetro geral, qual dos dois superou o outro. Todavia, posso afirmar que o maior erro que ele cometeu e que qualquer um pode cometer na vida, é seguir seus caminhos sem estabelecer uma aliança com Deus. Meu pai era um intelectual, buscou a fundo conhecimentos humanos, mas esqueceu-se do conhecimento divino. Conformou-se em seguir tradições e nem mesmo à elas deu muito apreço. Inevitavelmente, quando rejeitamos a presença de Deus em todos os momentos de nossas vidas, acabamos nos expondo às ações adversas ao bem que só Deus nos oferece.
 Desde mui jovem meu pai teve responsabilidades e foi educado de forma rígida, assim como seus outros 5 irmãos. Alguns de seus irmãos se foram ao sono eterno prematuramente, um deles em um acidente automobilístico e outros dois por motivos de doenças. Restaram até então os gêmeos e meu pai que era o caçula.
 O menino natural de Taquara, interior do Rio Grande do Sul, cresceu e formou-se biólogo. Teve uma carreira linda, atuou como professor, como pesquisador. Elaborou grandes projetos como o 'Projeto Jacaré' no Pantanal. Antes de atuar na área dele, trabalhou inclusive no Tribunal da Infância e Juventude,  creio que esta experiência teve influência sobre o modo como ele lidou com as 3 filhas, tanto que quando se separou da minha mãe ele fez questão de ficarmos com ela, pois para ele não havia coisa mais triste do que separar a mãe de uma criança. 
 Como ninguém é isento de defeitos, meu pai possuía problemas que influenciavam não somente a vida dele, como a de todos que o rodeavam, de forma negativa. Há um grande mal que acomete muitos lares, tornando o convívio familiar doloroso: o alcoolismo. Meu pai desde jovem viciou-se em álcool e o tabagismo era marca constante no dia-dia dele... O problema maior do alcoolismo é a reação que cada um expressa através do mesmo, no caso do meu pai, era a violência. Violência esta direcionada à minha mãe que suportou durante 16 anos momentos de verdadeira tensão e sofrimento, quando sob efeito da bebida ele a agredia física, verbal e psicologicamente. Desde de que nascemos fomos expostas a presenciar tais cenas e por vezes eram situações de extremo terror para nós assistir à tudo aquilo. Ele não era de chegar a espancar minha  mãe causando maiores danos, mas as marcas de tudo o que se passava entre eles também ficavam em nós.
  Consequentemente nosso comportamento também era afetado, mas ele como pai, a relação dele diretamente conosco era muito boa. Meu pai sempre procurava nos agradar, defender... ele vivia por nós, embora o vício por vezes teimasse em nos roubar este pai de amor. Ele não era violento com as menininhas dele. 
 São tantas as lembranças das brincadeiras e dos momentos felizes que ele nos proporcionava. Sempre nos ensinou a sermos amigas, unidas... Era o tipo de pai que construía com as próprias mãos brinquedos e engenhocas para nos divertir. Nas festividades nos enchia com farturas... nossa alegria era a dele. Nos cercou daquilo que ele próprio gostava: a natureza e os animais. Nos permitiu sermos crianças e até na hora de nos castigar ele era compassivo... Quando precisava usar a "vara" da disciplina, eram puxões de orelha, palmadas nas nádegas... quando nos punha de castigo, passados alguns minutos ele nos ia retirar do castigo.
  "-Vou contar até três... 1,2..." ( Mal se aproximava o três e já corríamos de medo, rs) 
  Engravidei aos 19 anos, e embora envergonhada não tive receio algum de contar ao meu pai, ele por nenhum momento me repreendeu ou me julgou, antes entendeu-me os braços e secou minhas lágrimas diante do meu medo de ser mãe tão jovem. Ele não era hipócrita, ele sabia que me repreender quando tudo já estava feito era gastar palavras e desperdiçar sentimentos. Se ocupar com a decepção ou com a raiva num momento desses é adiar o amor que fatidicamente viria cedo ou tarde... afinal, era uma vida que viria e uma criança jamais deve ser recebida com tristeza. 
  Todas as vezes que eu fiquei triste, pude sentar ao lado dele e conversar, expôr minhas aflições e sempre ele me ensinou a ter calma diante de qualquer situação, que o desespero nunca resolve nada... Este ensinamento trouxe grandes resultados benéficos à minha vida, pois de fato nos momentos onde mais precisei ter esse equilíbrio para seguir e modificar em algo bom seja, qual fosse o problema, eu consegui. 
  É impossível eu não olhar para trás e não reconhecer tudo de bom que meu pai tinha, mesmo com as lutas dele pessoais, mesmo com o gênio forte dele e com as manias. Ele nos repassou bons valores e quanto aos maus, cabe à cada uma saber discernir e transformar em positividade. Eu posso afirmar e não é hipocrisia, pois definitivamente não creio que só porque uma pessoa morra ela deixe de ter defeitos, mas eu quanto filha sou orgulhosa do pai que tive e preferia ter 1000 como ele do que não tê-lo. 

2 comentários:

Anónimo disse...

Nossa Lígia que lindo . Vc escreve muito bem! Eu não sou de ler textos muito longos pela internet mas sua redação/estória e muito bonita. Me avisa Qdo um dia publicar um livro que eu certamente gostaria de ler. Beijos. Fernanda

Lígia Breyer disse...

Obrigada Fê. Sim, em breve mais novidades e histórias emocionantes! Beijos e obrigada pela visita! ;)

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